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26.2.11

Sob a sombra das laranjeiras



Agora estou no Cindy's, um café  sem estilo com cara de café de filme americano. De fundo o rádio toca Maryah Carey e à minha frente, pessoas devoram seus sanduíches de presunto com queijo e cole slaw - uma salada de repolho que fede a peixe, pelo menos aqui. As poltronas são laranja e o tapete verde esconde a sujeira que eu ainda vejo se viro meu rosto para o vão da porta da cozinha ao meu lado. Flores de plástico estão penduradas nas esquinas do teto, e como sugestão do dia, pratos asiáticos escritos em folha de papel colada sobre o bar - os novos donos do local são uma família de chineses/coreanos/tailandeses.

Estou em Los Angeles. E tudo aqui soa distante de mim.

Bebo meu café com todo cuidado, pois isto é tudo que me pertence. Nessa cidade, me sinto desconectada, vejo as pessoas  perto de mim mas é como se estivessem envolvidas numa fina camada de plástico: eu posso ouvi-las, mas não consigo senti-las.
Estou sempre viajando e nunca tive medo de estar só em lugar desconhecido. Mas por alguma razão inexplicável, aqui nesta cidade, me sinto mais estranha que nunca. A onde moro é distante do centro, colaborando ainda mais para o meu afastamento. As ruas ficam vazias a noite, e o bar mais próximo, The Black Boar, se parece com uma caixa de concreto medieval onde cervejas mais pra ordinárias que espetaculares são servidas sem nenhum petisco, e o vinho da casa tem gosto de água com sabão. Na minha casa não tem internet, na esquina um Taco Bells me lembra da decadência do país e o café mais charmoso é o StarBucks.  A diversão então é pensar e pensar e andar.

E quando ando pelo bairro, me sinto mais feliz. As casas tem jardim externo - muito diferente da apavorada São Paulo, onde as pessoas escondem suas vidas atrás de muros de concreto : quanto mais rico o bairro, mais alto o muro. O solo da Califórnia é forte e nutritivo, aqui tudo cresce. As plantas são altas, as flores se abrem em cachos enormes. As casa são bem cuidadas, idem seus jardins. Na varanda, vasinhos de flores coloridas cercam as muretas brancas. No gramado da calçada, cada um cria a sua própria versão de jardim montando mosaicos com maçãs, mini abóboras e laranjeiras.

Ah, as laranjeiras. Tão robustas e cheias como nunca vi. As frutas se penduram bojudas nos galhos frágeis e balançam morosamente ao vento. Cada casa tem um pé de laranjeira, ou limoeiro, ou toranjas que desprendem um cheiro agridoce e terroso. E quando olho pra elas, me sinto em casa. Me sinto como uma laranja e quero também estar amontoada com os meus sob a sombra que consola aqueles que estão sem pátria.

 Retribuo com um sorriso as lembranças que elas me geram. Lembrança da fazenda do meu avô, eu e minha prima correndo e descobrindo o pomar atrás da sede. Catando laranjas e mexericas ou então, espremendo elas sob nossas botinas até sentir o cheiro viscoso de podridão. Dentro de mim, a sensação de sentar no tronco do pé de seriguela, quase morto e doente, e tentar chupar alguma fruta que ainda insiste em nascer. Minha avó descascando laranjas e fazendo um furo no centro para que a gente possa chupar seu caldo e depois comer o bagaço, com amor e paciência, ela descascou tantas laranjas quanto posso me lembrar, por tantos verões, fomos alimentadas no fim de toda  tarde por essa fruta, e ríamos e conversávamos e tudo ao redor era terra, pasto e felicidade.

No Eldorado do mundo, as laranjas são o ouro soberano. Aqui, mesmo na mais corrompida cidade, onde tudo ganha vida dentro do cinema mas por fora, o concreto e a multitude de luzes coloridas criam um cenário exótico e estranho, as laranjas crescem puras, refletindo o sol da Califórnia em sua casca lisa, como se num eterno estado de êxtase.

Cansada, me sento sob a sombra de uma delas, humildemente colho um fruto e com a força dos dentes rompo a sua pele. O ácido queima a minha boca e entra em meus olhos, na minha camisa, lágrimas e suco escorrem em direção ao chão. Não estou mais só.



6.7.10

Ah, o cotidiano!

A vida é longa, e entre tantos contratempos, trabalhos, viagens, carreiras de sucesso, filhos, cachorros,férias de verão; sem perceber, deixamos a nossa comida como um dos últimos itens a serem renovados, e quando nos damos conta, passamos grande parte de nossos dias comendo pratos chatos, repetitivos, circulares.

Posso citar aqui alguns momentos que eu chamaria de insights se não nos ocorressem todas as vezes que pensamos em comida.

Uma pasta: spaguetti
Um molho: de tomate
Uma carne: bife grelhado, peito de frango
Um acompanhamento: arroz, vegetais grelhados.
Uma sopa: missoshiro de saquinho ( já tomei litros disso)
Um peixe: atum enlatado
Salada: tomates, alface, cenoura
Sanduíche: Misto quente, porque não?

Assim, passamos semana trás semana, acomodando o nosso paladar em um limitado cerco de sabores. E mesmo em tempos onde nunca antes a gastronomia foi tanto o centro das atenções, sabemos que dentro de casa, as coisas não cheiram exatamente ao glamour que vemos nos programas de culinária. A realidade é crua e sem sal.

Sabemos também que pra conseguir sair dos trilhos da vida cotidiana, exige sim, alguns esforços como, por exemplo, ter que abrir um livro de receitas, ou reciclar a sua boa e velha lista de compras, tão confortável e familiar. Mas antes de ficar deprimido, achando que é um derrotado no campo da gastronomia, saiba que eu sou assim também. É um exercício diário poder pensar em coisas diferentes, em combinações, sabores e temperos. Ainda mais porque não sou nenhuma mestre e portanto também vivo limitada ao pouco do que sei sobre comida. Mas isso não tira o meu sono, não senhor. Pelo contrário, abrir todos os dias um livro diferente, ler rapidamente uma receita na internet, isso ajuda, aos poucos, a entender o ilimitado universo dos alimentos e suas combinações.

Não é necessário encarnar o espírito do Alex Atala e logo de prima sair por ai, desossando frangos, reduzindo molhos complicadíssimos ou tentando fazer aquela sobremesa francesa que um dia você comeu num bistrô. As chances de se frustrar e desistir ao ver o seu primeiro caramelo virar um carvão no fundo da panela são muito maiores. O sucesso na cozinha vem da nossa habilidade de dominar variáveis , e elas são muitas. Portanto, tente equilibrar técnicas já conhecidas com pitadas de ousadia.

Pasta é uma coisa fácil e sempre um bom campo para ser explorado. Mas quando tentei fazer a minha própria massa, num jantar com 10 amigos, eu quase tive que pedir uma pizza, a comida saiu somente as 2 da manhã, por que? Por que ousei demais e achei que ia impressionar a galera com a máquina de pasta nova. Ledo engano. Passo um: teste sempre antes.

Se no oceano das técnicas o melhor é sempre se assegurar antes, o mar dos sabores é uma aventura talvez menos penosa e mais divertida. Se a sua criatividade não é tão elaborada assim, então tente uma receita com ingredientes que você nunca imaginou juntos num prato e assim já vai ter garantido uma volta no wild side da cozinha.

Mas isso só vai acontecer se conseguir olhar um pouco pra fora do micro universo do dia a dia e ter paciência pra ir conquistando aos poucos autoconfiança suficiente. É sempre mais fácil comprar um molho para pasta pronto ou uma base de pizza congelada, mas será que este é o caminho? Tem pessoas que não suportam a idéia de cozinhar, isso eu respeito. Mas há outras que simplesmente não cozinham porque acham que não possuem competência para isso, mas entendam: só vivemos porque comemos, e se nossos ancestrais faziam lá seu churrasco de bizão, então também podemos fazer o nosso. Acho que cozinhar é algo nato da gente, nascemos sabendo mais ou menos o que é, e este instinto fica adormecido até que um dia alguém decida abrir a geladeira e fazer um omelete.

Dentre todas as desculpas a pior delas é a do tempo, este a gente tem, basta adaptar receitas que caibam na hora vaga. O jantar vira uma marmitinha do almoço no trabalho, caso esteja enjoado do kilo ao lado. E sempre que der, deixe no domingo uma salada de massa com vegetais, é o tipo do prato que dura até uma terça-feira. Pois os primeiros dias da semana são sempre os piores. Escolha o estilo preferido de cozinha, compre livros com títulos: cozinha pra um ou roteiros fáceis de pratos pra semana. Hoje em dia tem tudo e de tudo, é só tentar.

E se no fim der errado e todos os seus ovos acabarem sem ter rendido um ovo frito se quer e partir pra um china in Box, tudo bem, pelo menos você tentou e vai ter uma história pra contar quando os convivas aparecem e perguntar: mas hoje não era suflê?